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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

WORKSHOP do Norberto Presta - Manuela


Acabo de me dar conta que é da natureza desta pesquisa estar vazia e disponível na exploração e não cheia, mas o que acontece comigo é que eu não consigo ser vazia porque eu não sou vazia, tenho densidade de matéria bem mais densa que a densidade que tem o AR... fora de mim. Por isso preciso de tempo de estar comigo antes de estar com outro e neste trabalho somos convidados a tal pelo Noberto que nos pede para scannear nosso ser, para agir através de impulsos, deixar fluir... presente no espaço.

Lá de trás: Segunda feira, o 1° dia: o Norberto propôs e brincamos com ritmos, ativamos o corpo, brincamos, foi como uma integração de equipe... levantamos a discussão sobre o tema com os convidados e ficamos de fazer um lista de ações (interrompidas) para o 2° dia de workshop. Também deveríamos escolher e decorar um trecho de um texto sobre o dentro e fora, e/ou sobre o lamento (este, um pequeno universo dentro de um maior). Arrisquei rascunhando pensamentos da Hannah Arendt, da astronomia de Jorge de Albuquerque Vieira e das minhas brincadeiras. Ah! Tem Shakespeare também... lá vai:

É altamente improvável que nós, que podemos conhecer, determinar e definir a essência natural de todas as coisas que nos rodeiam e que não somos, venhamos a ser capazes de fazer o mesmo a nosso próprio respeito: seria como pular sobre nossa própria sombra.” ¹
Nossa própria sombra. Assombra a linha limite, a linha aqui e ali fora e dentro dentro dentro sinto meu pulso sinto ar contornando meu pulso pulso pul so
Derreto como gelo, como derrete o branco gigante do hemisfério. Derrete espalhando água recolocando deslocando Deslocando água sangue no tempo sucessivamente no espaço todo dia
Até ficar longe longe longe e lá manifestar lentamente a transformação. O universo
(Uni verso)
Um verso verso único: que verso escolher?
Olho de longe: “E o que o amor pode, o amor ousa tentar”²
não é atôa que a gente é reflexo desse céu estrelado, somos o universo manifestado, dentro . independe da escala do zoom se olharmos bem é sempre um novo universo contendo o universo anterior sempre maior e menor
penso nos órgãos nas tripas que nunca estiveram fora. Sempre úmidos. Nunca estiveram em contato com o ar, não sem a minha mediação. Se alimentam do ar que já respirei. São parte de mim como sou parte do universo. To dentro ou to fora? Imagine um mundo sem perguntas...

¹ ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Forense Universitária, 2008.
²SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. Nova Fronteira, 1997.

No 3° dia trabalhamos bastante voz com texto, voz sem texto, VOZ. Exploramos a reverberação do som no próprio corpo e na sala. Estávamos numa sala com pé direito baixo e foi possível fazer vibrar o ar na sala. Reverberar.

Agora, do 4° para o 5° dia de workshop, é hora de dar um passo novo: codificar sem se fechar, trazendo à consciência aquilo que se visita durante o trabalho. Hora de fazer escolhas. Nós levantamos materiais nestes dias (tenho uma seqüência de ações (interrompidas) e o texto) que agora devem ser organizados para seguirmos com o trabalho caminhando a um momento cênico – foi um pedido no Norby, estou trabalhando com a Gra nisso. Mesmo fazendo escolhas de ações e texto no tempo, ainda assim devemos nos manter abertas para o presente, para os impulsos que acontecem no exato instante do jogo, da relação viva para incorporar estes impulsos. E já, levando o retorno da Cris de hoje para a prática, acho que seria legal nós termos como intenção a leveza do jogo cômico, de fundo, como uma intenção branda... as coisas devem ser organizadas no corpo e nosso trabalho é escutar impulsos, escolher uma seqüência em dupla de texto e ação, e jogar com elas nos três níveis de atenção que o Norberto fala: consigo, em relação com o outro e em relação com o espaço. Muita coisa, hã?...

Que venha o amanhã!

domingo, 23 de novembro de 2008

FALANDO DO TEMA COM NORBERTO PRESTA


Ontem tive reunião com Norberto Presta, ator, diretor e dramaturgo, argentino radicado na Itália.
A partir de segunda-feira, Norberto irá conduzir o primeiro workshop do projeto. Ele decidiu chamar o trabalho que fará com a gente de ECOS.
Falamos muito e ele abriu várias janelinhas luminosas na minha cabeça. Grande sintonia com as as inquietações que motivaram este projeto.
Ele falou muito de uma página em especial do texto que lhe enviamos. Compartilho com vocês:

TEMA

“Na verdade, não sei por que estou tão triste”
O Mercador De Veneza, William Shakespeare

DA TRISTEZA
BASES PARA A CRIAÇÃO
A primeira fala da controversa peça de Shakespeare toca-nos particularmente: discorre sobre uma tristeza de causa desconhecida. Citando reportagem de Fernando Eichenberg: “Na Antigüidade greco-romana, médicos como Hipócrates (460-377 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) já faziam a distinção entre "distúrbio da tristeza sem causa" e "tristeza normal com causa". O escritor francês Victor Hugo (1802-1885) definiu a melancolia, uma variante da tristeza, como "a felicidade do estar triste". Na definição enciclopédica de Diderot era "o sentimento habitual de nossa imperfeição". Em 1958, o cirurgião-geral L. E. Burney já alertava que "problemas do cotidiano" não podem ser "solucionados com uma pílula".
Se, durante séculos, o sofrimento teve algum valor ou sentido hoje parecemos estar imersos numa epidemia depressiva. De acordo com dados da OMS, no ano de 2020, a depressão será a segunda maior causa de incapacitação para o trabalho (atrás somente das doenças cardíacas). Nos EUA, uma em cada oito crianças é diagnosticada como depressiva. No Brasil, estima-se que 17 milhões de pessoas recebem o mesmo diagnóstico.

Segundo Maria Rita Khel, o aumento da depressão na sociedade ocidental pode ser visto como um sintoma social, ou seja, um indício de que algo na sociedade não está funcionando. O depressivo seria uma caixa de ressonância do desajuste de sua época. Ao mesmo tempo, representaria uma busca de mudança ou de cura nesta sociedade. Uma tentativa de reorganizar o sentido perdido.
Para Horwitz e Wakefield, o homem moderno fecha os olhos para a sabedoria do passado e se engana não somente de tristeza, mas também de felicidade. Remédios são receitados como parte de uma ideologia, mais do que de uma ciência. Vivemos numa sociedade que não tolera a tristeza
Somos solicitados incessantemente ao Gozo e à Alegria, veiculados principalmente através de mensagens publicitárias. A imaginação é colonizada por imagens de felicidade que não nos trarão felicidade. Ainda assim, todos nós buscamos as fontes de felicidade: o paraíso, o nirvana, a iluminação, um prato de comida ou o carro do ano.
Diante disso, quais são nossas escolhas e valores? Como fica a relação com o outro? Como e do que nos lamentamos?
Do que nos arrependemos?

DA AÇÃO E DO ARREPENDIMENTO
Se a depressão compromete o agir, o arrependimento se refere a uma ação ou a uma falta de ação.
Segundo Hannah Arendt, a ação apresenta em si duas fragilidades: não se pode controlar totalmente seus efeitos - a ação é imprevisível- e não se pode reverter o que se fez - a ação é irreversível.
BASES PARA A CRIAÇÃO
É interessante observar como Gilles Deleuze relaciona as mudanças da sociedade com a ação e o riso. Nos filmes de Jaques Tati e de Jerry Lewis, os dois comediantes do pós-guerra, em países diferentes e sem influenciar um ao outro, criam personagens estrangeiros às situações que os rodeiam, às lógicas novas que os escapam. Não se pode mais agir. Não há mais ação. A impossibilidade de agir configura-se em cada um deles de forma diferente e vai empurrar a situação até o desastre. A catástrofe provoca o riso, ancorada numa perspectiva mais contemporânea.

Queremos explorar como os aspectos do mundo exterior - valores, qualidade de vida, mudanças sociais- tendem a se confundir com os processos emocionais do indivíduo. E como os processos do indivíduo se refletem no mundo que os cerca.
Investigar cenicamente.
Os mecanismos da ação.
Aquilo que incapacita para a ação.
Sintomas sociais.
Felicidade e tristeza. O riso "